PET

  • 05/02/2017 (10:12:41)

  • Repórter: Gazeta do Povo

  • Fotógrafo: Thinkstockphotos

Meu Pet

Saiba por que cachorros de raça têm a saúde mais frágil que os vira-latas

Se antigamente os cães eram selecionados por funções, hoje são pela estética. Quem escolhe os menores tem de saber que está levando o animal mais debilitado para casa


Para deixar os animais mais “bonitos” os homens começaram a interferir na genética dos cachorros, chegando até mesmo a prejudicar a saúde dos animais. Paulo Parreira, médico veterinário especialista em comportamento animal e professor da PUCPR, lembra que quando o buldogue inglês surgiu o seu focinho não era tão curto, e os pastores alemães não tinham a lombar tão inclinada, por exemplo. As duas mudanças foram feitas para tornar as raças mais atrativas esteticamente. As mudanças são recentes. Um vídeo que viralizou nas redes sociais, produzido pelo americano Adam Conover, aponta que 90% das raças como conhecemos hoje foram criadas nos últimos 100 anos. “Uma nova tendência em cães é o Labradoodle, cruzamento de um labrador retriever e um poodle comum ou miniatura, que é hipoalergênico, extremamente inteligente e ótimo cão guia”, diz Parreira.

Os cruzamentos genéticos podem deixar os animais mais propensos a doenças; principalmente quando pais e filhos são colocados para cruzar em busca de chegar mais rápido a uma característica específica. “Quem procura um yorkshire prefere os animais menores. Mas não pensa que o menor filhote, na natureza, seria aquele que não sobreviveria e que é o mais debilitado”, explica. É o criador quem dá mamadeira e permite que o animal sobreviva e chegue à fase adulta continuando a repassar características frágeis. “A seleção inadequada cria um círculo vicioso”. Segundo o médico veterinário, isso não significa que toda criação de cachorro é irresponsável, mas é preciso lembrar que ela é tratada como um negócio, muitas vezes ignorando o bem estar dos animais.

“Deveria ser proibido fazer cruzamento consanguíneo, mas eles trazem resultado rápido e fácil das características desejadas pelos compradores. Ao mesmo tempo, a prática propaga genes recessivos, potencializa doenças e pode causar câncer, insuficiência cardíaca ou renal”. Considerando isso, o especialista explica que o vira-lata é muito mais resistente porque é selecionado naturalmente e consegue se reproduzir e sobreviver porque é mais forte, não porque um criador estimula isso. Ele ainda passa por um processo de seleção natural.

Como comprar um cão de raça de forma consciente?
O principal é a pessoa não comprar por impulso. Como ir num pet shop, ver uma raça que sempre quis e comprar. O ideal é visitar o canil, conhecer os pais do cachorro, a ninhada e ver o seu comportamento em relação aos outros cães irmãos. Também é importante se informar em relação ao criador, ver se o canil é registrado e conhecer melhor a raça, além de falar com um veterinário. Ultimamente tem aumentado até os cães de raça para adoção – porque muita gente compra no impulso e não pensa nas características e cuidados que o animal vai precisar. “Não se pode comprar um cachorro por status”, lembra o veterinário.

Como surgiram os cães e as raças
A domesticação do cachorro é explicada por diversas teorias, embora a maioria dos cientistas que estuda esses animais concorda que, cerca de 15 mil anos atrás, uma alcateia se separou de outras e acabou se transformando nos cachorros, com comportamento diferente e variações no formato do crânio, além de outros padrões de criação. De acordo com Parreira, 90% do DNA mitocondrial (que define ancestralidade) do cão é igual ao do lobo.

As pessoas acabaram assumindo a criação de alguns cães para obter as qualidades que queriam, mas a maioria dos animais pode ter vivido à sombra de antigos acampamentos, fazendas e aldeias, alimentando-se de lixo e restos. “Os cães eram selecionados por funções, como aqueles utilizados em caça ou batalhas. Na época não havia preocupação com características físicas como cor e pelagem”, explica Parreira.

Mais tarde, todos os tipos de novas raças foram desenvolvidos no que Greger Larson, da Universidade de Oxford, chamou de “o turbilhão do frenesi europeu de criação de cachorros da época vitoriana”. Foi nessa época em que surgiu o “The Kennel Club” britânico, o primeiro clube de cães e, consequentemente, livros que padronizam e desenham as raças. A preocupação agora é estética: cachorros com focinho pequeno são mais atrativos, assim como aqueles que têm o pelo mais sedoso. O poodle, por exemplo, é um cão retriever, pois a sua função original era a de buscar a caça – buscar um pato antes que ele saísse afundasse na lagoa, por exemplo, embora no Brasil eles sejam mais utilizados como cães de companhia.