AGRICULTURA

  • 24/10/2013 (12:43:58)

  • Julio Mocellin

ITÁLIA E ESPANHA

Presidente da Agricoop participa de viagem técnica

Mario Farina integrou o grupo de representantes de cooperativas do Rio Grande do Sul e integrantes do governo gaúcho que viajaram no início deste mês com o objetivo de conhecer e trocar experiências e estabelecer parcerias com cooperativas, governos e ent

Mario Farina integrou o grupo de representantes de cooperativas do Rio Grande do Sul e integrantes do governo gaúcho que viajaram no início deste mês com o objetivo de conhecer e trocar experiências e estabelecer parcerias com cooperativas, governos e entidades italianas e espanholas para o fortalecimento do cooperativismo local.

A viagem foi organizada pelas secretarias de estado de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo e de Relações Internacionais e abriu oportunidade para integrantes de cooperativas de produtores de leite, vinho, assentados da reforma agrária e de recicladores conhecerem a experiência do Norte da Espanha, e do Vêneto e da Emíglia Romana, na Itália.

Na Espanha, o contato foi com o sistema de cooperativas de Mondragon, um complexo de 120 cooperativas que produzem desde eletrodomésticos até componentes para aviação. Com um faturamento de 16 bilhões de Euros em 2012, o complexo de Mondragon é uma das experiências mais consolidadas no setor, na Europa: dos 20 mil habitantes da cidade, cinco mil são associados às cooperativas.

Na região do Vêneto, o grupo se reuniu com a Confederação das Cooperativas e representantes do governo do setor da indústria e comércio e desenvolvimento. Conheceram experiências de cooperativas que produzem e vendem produtos biológicos, um mercado crescente que já representa 10% do total da venda de alimentos no país.

Na Emíglia Romana, além dos contatos governamentais, se reuniram com representantes do ICEA, Instituto que certifica os produtos que são comercializados com o selo de alimentos biológicos. “Percebe-se que este mercado cresce na Itália embalado pelo debate que linca o alimento, a saúde e a qualidade de vida. Por isso estes alimentos tem maior valor no mercado, é quase uma representação de um modo de vida”, analisa o presidente da Agricoop, Mario Farina.

Os cooperativistas gaúchos voltaram com duas possibilidades concretas de intercâmbio. O primeiro com a ONG MUNDUKIDE , de Mondragon, que já apoia projetos no Brasil, nos estados do Paraná e Espírito Santo. “Há a possibilidade de eles apoiarem projetos no Rio Grande do Sul para formação de dirigentes e gestão de cooperativas e de abrir estágios para técnicos brasileiros na Espanha”, informou Farina. Na Itália, o ICEA ofereceu a sua experiência para auxiliar no processo de implementação brasileira de certificação de produtos biológicos.

Cooperativa tem que dar resultado para os sócios: este é o modelo de gestão implantado nas cooperativas visitadas, que tem um importante diferencial: tanto na Italia quanto na Espanha estão localizadas em regiões que sofrem menos com a crise econômica. Para Farina, é este modelo centralizado no cooperativismo e no fortalecimento da pequena e média empresa que produz este resultado.

“O cooperativismo tem tanta importância econômica nestes locais que se torna um meio de vida. As relações de trabalho, consumo, credito, produção, formação estão todas ligadas a este sistema”, salienta o presidente. Ele destaca também que o cooperativismo espanhol e italiano já superou algumas dificuldades que o sistema brasileiro ainda apresenta. “Enquanto ainda temos dificuldades de gestão, eles estão focados na gestão profissional e de resultado. Também trabalham muito as parcerias. É comum ver cooperativas de diversos segmentos formarem consórcios para terem mais força e alcançar melhores resultados”.

Saiba mais

A Mondragón Cooperative Corporation

(Mondragón Corporación Cooperativa – o MCC) é um grupo de produção industrial e de empresas de distribuição sediadas no País Basco (norte da Espanha) e também no resto de Espanha, bem como no estrangeiro. É considerada a maior cooperativa de trabalhadores do mundo.

O Complexo Cooperativas de Mondragon é um exemplo mundialmente famoso por sua capacidade de reunir 120 empresas sob forma de Cooperativas, sendo 87 industriais, 1 de crédito (Caja Laboral), 1 de consumo (Eroski), 4 agrícolas, 13 cooperativas de pesquisa, 6 de serviços em consultoria e 8 cooperativas de educação. São associados das Cooperativas apenas seus trabalhadores que atualmente somam 93 mil pessoas. Na essência todas as cooperativas de Mondragón são Cooperativas de Trabalho que possuem produtos e serviços diferentes entre si.

Mondragón é o 7º grupo econômico da Espanha, com vendas em torno de 13,6 bilhões de euros e resultado de 792 milhões de euros em 2007.

O município tem aproximadamente 22 mil habitantes, dos quais estima-se que atualmente cerca de 70% da população economicamente ativa trabalhe em cooperativas do grupo MCC.

O Grupo Mondragón baseia sua atuação nos princípios cooperativos e na forte intercooperação entre as diversas cooperativas que o compõem e que se complementam.

A política da MCC é de manter as cooperativas focadas no que ela é especialista e, em havendo a necessidade de produzir internamente algum novo componente, antes adquirido do mercado, cria-se uma nova cooperativa com este propósito específico. Esta política foi a impulsionadora do fato de atualmente existirem 120 cooperativas no grupo MCC.

Os supermercados da Cooperativa de Consumo Eroski são abastecidos por caminhões pertencentes às cooperativas. Os membros podem ter estudado em “ikastola” e prosseguido os seus estudos na Universidade de Mondragón, tendo ao mesmo tempo um estágio numa cooperativa.

Quando uma cooperativa tem um problema econômico, os trabalhadores preferem fazer cortes nas despesas do que a proceder a demissões. Se a situação for muito ruim, os trabalhadores excedentários são integrados noutras cooperativas do grupo temporariamente.

Atualmente o Grupo Mondragón vem buscando a internacionalização (abertura de mercado em outros países além da Espanha). Prova disto é a compra em 2005 pela Fagor Eletrodomésticos da maior marca francesa de eletrodomésticos, a Brandt. Parte do valor investido nesta aquisição foi com recursos do Fundo MCC para novos investimentos.

Princípios Básicos

A experiência cooperativa da Mondragón segue 10 princípios básicos, três a mais do que a Aliança Cooperativa Internacional (ACI):

  • Educação: para implantar os demais princípios cooperativos é fundamental a dedicação das pessoas.
  • Soberania do trabalho: a experiência da MCC considera o trabalho o principal fator transformador da natureza, da sociedade e do próprio ser humano.
  • O carácter instrumental e subordinado do capital: o capital social é subordinado ao trabalho e é necessário para o desenvolvimento empresarial, devendo sua remuneração ser justa, adequada e o valor mínimo para ingresso na cooperativa não pode ser um limitador para a livre adesão.
  • Organização Democrática: as cooperativas são conduzidas pelos seus sócios, valorizando a prática do “um sócio, um voto”.
  • Livre adesão: desde que respeitados os princípios definidos não poderão haver discriminações religiosas, políticas, étnicas ou de sexo, por ocasião do interesse de adesão de um novo sócio.
  • Participação na Gestão: Além de ser uma organização democrática em sua essência, as cooperativas devem buscar a autogestão e a participação dos sócios no âmbito da gestão empresarial.
  • Solidariedade Retributiva: os salários devem ser suficientes, de acordo com a realidade da cooperativa, devem ser equivalentes com os salários de outras empresas da região e internamente devem respeitar o limite definido entre a remuneração mínima e a máxima (6x).
  • Intercooperação: dá-se através das relações entre cooperativas do mesmo ramo de atividade, reunidas nas divisões, com compartilhamento dos resultados, transferência dos sócios-trabalhadores. A intercooperação deve ocorrer também com outras cooperativas do grupo MCC, do País Vasco e do mundo.
  • Transformação Social: tem como objetivo buscar a construção de uma sociedade vasca mais livre, justa e solidária.
  • Caráter Universal: a MCC é solidária a todos os que trabalham pela democracia econômica no âmbito da Economia Social, com objetivos de Paz, Justiça e Desenvolvimento.
  • Como forma de estimular a participação dos associados nas Assembleias, existe a prática de que cada associado pode representar a si mesmo e a mais 2 associados na assembleia. Se alguém não participar da assembleia do ano atual fica impedido de votar na assembleia do ano seguinte.

    Texto: Marli Bertotti

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