SEGURANÇA

  • 22/12/2012 (18:46:00)

Bandido

Falso pastor tinha credenciais para pregar a palavra de Deus em presídios

O jornal Zero Hora, na edição deste fim de semana, traz uma reportagem em que conta a história do traficante, que se passou por vários anos como pastor evangélico na Serra Gaúcha.

Pastor das igrejas Rosa de Sarom e Assembleia de Deus, Clóvis Ribeiro, 41 anos, gasta horas do dia pregando a Bíblia pela periferia de cidades serranas. É respeitado e querido entre os evangélicos. — Ele sempre fala com emoção que devemos seguir o caminho do bem — diz um amigo. Há quatro anos, Ribeiro leva uma vida sem sobressaltos com a mulher e duas filhas – uma adolescente de 14 anos e uma jovem de 18 anos – em uma cobertura no centro de Gramado, avaliada pelo mercado local em cerca de R$ 1,2 milhão. No início da manhã de sexta-feira, porém, uma outra face de pastor Clóvis tornou-se pública. Com um mandado de prisão nas mãos, investigadores da Polícia Civil prenderam Nai, como Clóvis é conhecido no mundo do crime. Ele é definido pelo delegado paulista Ivaney Carlos de Souza como um dos “maiores traficantes de São Paulo”. Uma das suspeitas alimentadas há anos contra Nai é de que lave dinheiro obtido com o tráfico de armas para a guerrilha colombiana Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a mais antiga guerrilha da América. Em 1º de setembro de 2005, foi interrogado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Armas da Câmara Federal. Ele negou, mas a suspeita é de que remetesse armas para os guerrilheiros colombianos, em troca de droga. A prisão de Nai deixou incrédula uma comunidade. — Eu o conheci há cerca de quatro anos, mas há pouco mais de um ano nos aproximamos mais e ele começou a participar das nossas atividades. Ajudava como todos aqui, fazia as contribuições — surpreendeu-se Osvaldir Santos, pastor da Rosa de Sarom em Canela. A associação com a imagem do bom pastor é a mais comum feita entre comerciantes das redondezas do prédio onde Nai morava. Era comum vê-lo dentro de lojas tentando angariar fiéis. Pastor com sotaque paulista, Nai apreciava passear com a família na Rua Coberta, comia em bons restaurantes, mas sem ostentação. Apesar de discreto, revelava a vizinhos que tinha negócios em São Paulo – mas nunca os detalhava. Para os pastores mais chegados, confidenciava alugar lojas em Gramado. Quando não estava em viagem, Nai eram visto com frequência no estacionamento do prédio onde reside falando ao telefone. — Ele parecia dar ordens e falava em cidades de fora daqui — conta um vizinho. À noite, saía com uma frequência incomum. Segundo informava aos vizinhos, ia participar de cultos. Na maioria das vezes, saía e retornava sozinho. Imagens encontradas em seu iPad indicam que Nai estava adaptado ao Sul. Havia trocado a moranga com camarão, seu prato preferido no litoral paulista, pelo churrasco de rês. Para matar a saudade da culinária da terra de origem, a receita com frutos do mar era preparada em casa, como revelam alguns vídeos. O material apreendido pela Polícia Civil ainda sugere que Nai parecia feliz com a nova vida. Fotos localizadas em pastas do mesmo iPad mostram que ele não se incomodava em ser fotografado em sua rotina de pastor ao lado de fiéis e outros ministros. — Ele vivia uma vida normal, sem despertar atenções — resume o delegado Gustavo Barcellos, responsável pela captura de Nai. No entardecer de sexta-feira, Nai trocou a bucólica Gramado por uma cela na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (PASC).