POLÍTICA

  • 04/03/2019 (08:41:28)

  • Repórter: Gazeta do Povo

​ De novo eles ?

"Escolha de novos aliados reforça presença da velha política na gestão Bolsonaro

Entre os sete deputados escolhidos pelo Planalto, dois exerceram mesma função na gestão Temer. Nomes tradicionais ocupam também outras posições-chave"

Deputado Darcísio Perondi (MDB-RS), que foi um dos mais fiéis defensores do governo Temer, agora é vi ce-líder do governo Bolsonaro na Câmara. Marcelo Camargo/Agência Brasil

"A relação de sete deputados federais escolhidos para o cargo de vice-líder do governo de Jair Bolsonaro (PSL) na Câmara trouxe, entre os nomes, os de Darcísio Perondi (MDB-RS) e Capitão Augusto (PR-SP). Ambos atuaram na mesma função durante o mandato do antecessor do atual presidente, Michel Temer."

"O conjunto de vice-líderes foi anunciado na segunda-feira (25), após uma reunião de Bolsonaro com os parlamentares. Os escolhidos foram oficializados no Diário Oficial da terça-feira (26), com direito a um erro de digitação no nome de Perondi, grafado como “Darcício”.

Perondi e Augusto somam-se a outros nomes com rodagem no cenário nacional que estão cerrando fileiras ao lado do governo Bolsonaro. A presença dos políticos experientes contraria, de certo modo, parte do discurso adotado pelo presidente ao longo do período eleitoral e no início de sua gestão. Em seus pronunciamentos de posse, Bolsonaro usou as sentenças “montamos nossa equipe de forma técnica, sem o tradicional viés político que tornou o Estado ineficiente e corrupto” e “graças a vocês conseguimos montar um governo sem conchavos ou acertos políticos”.

Durante o período de transição, quando Bolsonaro estava montando a sua equipe, uma fala bastante adotada pelo presidente e seus auxiliares era de que a negociação entre governo e Congresso seria pautada pelo diálogo com as “bancadas temáticas”, grupo de parlamentares com interesses comuns, como evangélicos ou ambientalistas, e não com os partidos, como é habitualmente feito. Essa estratégia também perdeu força.

A líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), admitiu que o relacionamento com as bancadas temáticas foi uma “estratégia inicial”.

Quem são os veteranos?
Entre os ministros de Bolsonaro, cinco são deputados federais licenciados: Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Tereza Cristina (Agricultura), Osmar Terra (Cidadania), Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Marcelo Álvaro Antônio (Turismo). À exceção de Terra (MDB) e Antônio (PSL), todos são do DEM, partido a que também são filiados os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (AP).

O Democratas apoiou no primeiro turno das eleições presidenciais a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) e no início de 2018 cogitou apresentar o nome de Maia para a corrida presidencial.

Compõem ainda a equipe do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios o secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Rogério Marinho, que é ex-deputado federal pelo PSDB, o secretário especial para o Senado da Casa Civil, Paulo Bauer, também do PSDB, que é ex-senador, e o equivalente para a Câmara, Carlos Manato, que é filiado ao PSL, foi deputado federal pelo Espírito Santo e em 2018 perdeu a eleição para o governo do seu estado.

Outro nome experiente indicado por Bolsonaro foi o do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE). O parlamentar havia ocupado o mesmo cargo na gestão de Michel Temer e, no primeiro mandato de Dilma Rousseff, foi ministro da Integração Nacional.

Compensação
Um “não-veterano” que foi nomeado por Bolsonaro para um cargo de ponta foi o deputado federal Major Vitor Hugo (PSL-GO), escolhido como líder do governo na Câmara. O parlamentar, entretanto, figura entre os nomes mais controversos do Congresso. Sua atuação tem despertado críticas de simpatizantes do governo e foi contestada até mesmo pelo líder do PSL, Delegado Waldir (GO).

A indicação de experientes entre os vice-líderes serviu, então, também para conter os focos de insatisfação despertados pelo trabalho do Major Vitor Hugo. Darcísio Perondi está sem seu sétimo mandato na Câmara. Já o Capitão Augusto, embora cumpra a partir de 2019 apenas o segundo como deputado federal, ganhou projeção na legislatura anterior e é o presidente da Frente Parlamentar da Segurança Pública, a popular “bancada da bala”.

“Um governo renovador precisa de força jovem e de forças com experiência. E ele vai aproveitar deputados experimentados para isso”, disse Perondi. Segundo o emedebista, as condições de saúde de Bolsonaro – que passou grande parte do início do mandato afastado da cadeira presidencial – fizeram com que apenas em épocas mais recentes o presidente tenha se empenhado de maneira mais efetiva para montar a sua base no Congresso. “E nós vamos ter que conversar com todos os deputados que concordem com a necessidade das reformas”, disse.

Na comparação entre as gestões Temer e Bolsonaro, em que foi vice-líder, Perondi elenca o tempo curto e a ausência do respaldo do voto popular que marcaram o governo do sucessor de Dilma Rousseff. “No governo Michel, tivemos pouco tempo. Tínhamos pressa para tirar o Brasil da maior recessão de sua história”, declarou.

Augusto também constatou a relevância do processo eleitoral e viu um quadro oposto entre Temer e Bolsonaro. “Temer era impopular nas ruas, mas tinha um trânsito ótimo dentro do Congresso. Já Bolsonaro tem uma ótima popularidade, mas ainda carrega uma dificuldade na relação com a Câmara e o Senado”, apontou.

Negociações partidárias
A indicação dos vice-líderes gerou ruídos entre alguns caciques partidários. Reportagem da Folha de S. Paulo revelou que as nomeações dos integrantes de algumas siglas, como PR, Solidariedade e PSD, se deu sem que os dirigentes partidários fossem consultados.

Capitão Augusto confirmou o quadro, mas negou que a situação represente um problema. “Eu fui convidado diretamente pelo presidente Bolsonaro. Assim como na gestão anterior eu havia sido chamado diretamente pelo presidente Temer. Não é que houve uma sugestão para que o PR apresentasse um nome, e eu impus o meu. Até porque eu não faria algo à revelia do meu partido”, disse.

Já Perondi afirmou que “a indicação foi conversada previamente entre o governo e meu líder Baleia [Rossi, deputado de São Paulo]”.

Além de Perondi e Augusto, os outros vice-líderes são Carlos Jordy (PSL-RJ), Coronel Armando (PSL-SC), José Medeiros (Podemos-MT), Lucas Vergílio (Solidariedade-GO) e Major Fabiana (PSL-RJ). Os três membros do PSL estão em seus primeiros mandatos. Vergílio cumpre seu segundo quadriênio na Câmara. Já Medeiros é estreante, mas entre 2015 e 2019 exerceu mandato de senador. Ele fora eleito, em 2010, suplente de Pedro Taques, que em 2014 foi escolhido governador do Mato Grosso pelo PDT."