GENTE

  • 16/08/2019 (15:54:40)

  • GZH

  • Fotógrafo: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

GUARDA -AMOR

Professora transforma guarda-chuva estragado em saco de dormir e doa para moradores de rua


Em uma casa no bairro Cavalhada, guarda-chuvas deixam a simples função de proteger contra chuva para serem transformados em um objeto mais nobre. O que seria lixo, se transforma em sacos de dormir forrados com cobertores, que aquecem moradores de rua.

— Ao entregar as capas, ganho sorrisos. Esse é o meu pagamento. Tudo que o dinheiro compra estraga. Uma pessoa dormir aquecida não tem preço — resume a idealizadora da ação Lídia Borges, 40 anos.

A casa da “cientista” é um verdadeiro laboratório de reaproveitamento dos objetos sem condições de uso. Enquanto ela costura os panos nas cobertas, a força-tarefa familiar atua sem parar: o marido recorta as colchas e retira as hastes dos guarda-chuvas entregues por voluntários e a sogra faz o acabamento, importante etapa para manter a vedação da bolsa protetora. 

— Minha recompensa é quando a gente entrega. Saber que tem menos um passando frio. Se já se sente frio em casa, não dá para imaginar o que é na rua, que ainda tem toda a umidade — acrescenta.

Como toda história de herói, a professora também tem no seu enredo de vida a superação. A ideia de moldar as capas surgiu quando estava hospitalizada na Santa Casa tratando um câncer de mama.

— Eu fazia radioterapia no Santa Rita (do complexo hospitalar) todas as noites. E notei que vários irmãos dormiam no chão “puro”. Tiramos força do bem. Porque se todo mundo fizer um pouquinho de bem, o mal perde. O mal só tem força quando o bem fica inerte, parado. E não custa. Uma hora e meia da vida, tomando chimarrão, conversando, a gente faz os sacos — relata ela, sem deixar de dar os méritos da iniciativa a uma reportagem com uma voluntária de São Paulo, de onde tirou a inspiração.

Em média, a “fábrica” gera de três a quatro sacos de dormir por semana.

— Se tivéssemos mais doações, certamente poderíamos chegar ao dobro de sacos. Por isso, precisamos de cobertores, principalmente, para produzir mais — afirma.

Na última terça-feira (13), seis sacos foram distribuídos para moradores em situação de rua na região central — apesar de mais de cem guarda-chuvas já terem sido desmontados, oito sacos foram finalizados, já que faltam cobertores. A receptividade de quem recebe é o que deixa o casal mais feliz. O sorriso ao avistar a doação é “cativante” e “gratificador”, define Wagner Rodrigues, 39 anos, marido da professora:

— As pessoas primeiro pensam que são cobertores. Mas depois acham bem legal. Teve um que disse: “Com essa coberta, vou conseguir dormir hoje, porque na noite passada fiquei andando de um lado pro outro pra esquentar". 

Além de ajudar os sem-teto, Lídia defende que seu trabalho também melhora o planeta:

— Ia tudo para o lixo. Algumas pessoas me perguntaram se eu queria tecido impermeável. Eu não quero. Quero produzir menos lixo, tirar o lixo da rua. Como professora, tenho a função de deixar um mundo melhor — finaliza.