GENTE

  • 22/08/2019 (10:38:39)

  • G1

INSPIRAÇÃO

Aos 83 anos, moradora de Canoas se forma em letras

“Velhice é só por fora. A gente pode se conservar jovem”

Foto: Arquivo Pessoal/Luciele Oliveira


Apaixonada por poesia desde a juventude, Maria Rigo decidiu investir no aprendizado da literatura e ingressou em sua primeira graduação já na terceira idade.

Durante a formatura do curso de letras da Universidade LaSalle, em Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre, no último sábado (17), uma das alunas estava especialmente feliz: aos 83 anos, Maria dos Santos Rigo finalmente conquistou seu diploma universitário, após seis anos de dedicação à primeira graduação.

Aposentada como industriária, mãe de três filhos e viúva há 30 anos, Maria decidiu entrar na graduação já na terceira idade por causa de uma paixão: a literatura. Fundadora da Casa da Poesia de Canoas, instituição que incentiva e forma leitores, ela conta que escreve desde a infância, e já lançou até um livro.

"Foi para agregar ao que eu já gostava de fazer. Como eu já escrevia e tinha interesse pela literatura, decidi ir para a faculdade para desenvolver mais. Foi muito bom, proveitoso para a minha escrita", comenta.

Quando decidiu ingressar no curso, dona Maria conta que chegou a ouvir de alguns familiares e conhecidos que não conseguiria chegar ao final, que desistiria e não concluiria o curso. Mas o que aconteceu foi o contrário: até em dias de chuva, a aluna não perdeu aula. "Só quando fiquei doente é que faltei um ou dois dias", conta.

Na apresentação do trabalho de conclusão de curso, obteve a nota 9 com um projeto sobre o escritor canoense Antônio Canabarro Tróis Filho. O próximo passo da formada em letras é escrever a biografia do autor. "Mas isso vai demorar, uma biografia demora anos, não é assim de uma hora pra outra", pondera.

Outro plano é voltar mais uma vez para a sala de aula: ela que cursar história.


Foto: Portho Sul


Estagiária aos 80 anos

Maria cumpriu o estágio obrigatório do curso de licenciatura em escolas de ensino fundamental e médio e também na Universidade Aberta para a Terceira Idade (Unati), projeto do próprio LaSalle.

"As pessoas me perguntavam: 'Tu vai trabalhar?', e eu dizia: 'Olha, trabalhar sei que não vou, mas eu vou participar. Vou escrever. Não vai ser em vão'", diz ela. A experiência conquistada em sala de aula servirá para a escritora promover palestras de forma voluntária.

De 2013 a 2019, dona Maria conviveu com colegas e professores das mais diversas idades: em sala de aula, estudava com pessoas de 20 e poucos anos e também com aqueles já passando dos 60. Com todos, garante ela, tanto ensinou quanto aprendeu.

"Fui muito bem aceita. Com os novos a gente aprende também. Não é porque a pessoa tem idade que ela não aprende", diz.

Por exemplo, a tecnologia: Maria conta que não usava "quase nada" no computador. Na universidade, aprendeu a baixar os trabalhos e imprimi-los para ler. "Hoje em dia todo mundo lê no celular, mas eu não consigo. Preciso imprimir para ler", comenta.