ECONOMIA

  • 23/08/2019 (17:28:46)

  • Repórter: Gazeta do Povo

DESMATAMENTO

Picos históricos de incêndios na Amazônia foram de 2004 a 2007

O fogo que queima parte da vegetação da Amazônia, e cuja fumaça se espalha pelo país – e nas imagens de satélites captadas até mesmo pela Nasa –, catapultou o debate ambiental no Brasil a outro patamar. E ele vai além da argumentação sobre a soberania brasileira na região e o trabalho de organizações não governamentais (ONGs): expõe contingenciamento de verbas e respinga nas relações comerciais com outros países. Apesar da alta temperatura do debate, os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Brasil registrou, até esta sexta-feira, 76.720 pontos de queimadas no ano. Uma parcial bem distante dos picos históricos registrados em 2004 (380 mil focos), 2005 (362 mil) e 2007 (393 mil), durante os governos Lula.

A gestão do meio ambiente do novo governo é alvo de críticas de movimentos ligados à área ambiental. Por um lado, há um quê de excentricidade em determinadas ações, como a de transformar Angra dos Reis na Cancún brasileira. Mas, por outro, também já houve situações mais sérias, como a demissão de Ricardo Galvão da presidência do Inpe, por discordâncias sobre os dados de desmatamento.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já contestaram a veracidade de dados produzidos pelo próprio governo sobre desmatamento, criticaram políticas públicas de fiscalização, questionaram a atuação de entidades do terceiro setor (ONGs) e contestaram as doações bilionárias feitas por Alemanha e Noruega ao Fundo Amazônia.

Como o governo contestou dados do próprio Inpe, esta semana o Ibama lançou edital para compra de um novo sistema de monitoramento que o governo pretende adotar, com o propósito de apurar novas informações sobre o desmatamento na região amazônica. O ministério quer fazer a "prospecção de empresas especializadas no fornecimento de serviços de monitoramento contínuo", com o uso de imagens de satélites "de alta resolução espacial para geração de alertas diários de indícios de desmatamento (revisita diária).

A discussão chega agora a um ponto crítico, tanto pelo impacto material das queimadas, quanto pelas incertezas políticas do porvir, que já somam até mesmo pedido de impeachment contra o ministro e ação de inconstitucionalidade contra o governo. Além disso, fragiliza a relação do governo com o Congresso: o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse em seu perfil pessoal no Twitter que a Casa vai criar uma comissão externa para acompanhar o problema das queimadas que atingem a Amazônia. Além disso, o parlamentar também informou que vai realizar uma comissão geral nos próximos dias para avaliar a situação e propor soluções ao governo.

As queimadas
Os números de focos de queimadas estão crescendo desde o começo do ano no Brasil quando é analisado o saldo mensal. De 1º de janeiro até o dia 23 de agosto foram contabilizados 76.720 focos, de acordo com dados do Programa Queimadas. Porém, quando analisado em comparação com a série histórica o panorama muda. No ano passado, foram registrados 132 mil focos de incêndio. A tabela do Inpe que registra o histórico de queimadas no país tem dados desde junho de 1998. Os picos históricos de focos de incêndio aconteceram nos anos de 2004 (380 mil focos), 2005 (362 mil) e 2007 (393 mil).

Duas semanas atrás, as queimadas fizeram o Amazonas decretar emergência no sul do Estado e na Grande Manaus. Semana passada, o Acre declarou alerta ambiental. O problema se alastra ainda em Mato Grosso e no Pará. As chamas também se espalham pelo Cerrado no Tocantins. Mas a situação é mais emblemática na Amazônia.

"Nos oito primeiros meses de 2019, foram registrados 39.033 focos apenas no bioma amazônico. Esse número é superior ao que havia sido registrado em 2016, quando o país também enfrentava uma estiagem severa como a deste ano. Mas pesquisadores alertam que a seca não é a única explicação para o que está acontecendo.

O Mato Grosso, por exemplo, é o estado com mais focos – eram 13.682 até a segunda-feira (19). Um dos pontos de incêndio estava no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, onde desde o dia 9 de agosto brigadistas do ICMBio tentavam conter as chamas na vegetação. O ministro Ricardo Salles passou pelo estado nesta quarta-feira (21) para acompanhar o trabalho de combate ao fogo.

Uma análise do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) sobre a temporada atual de fogo na região apontou que já é 60% superior à média dos últimos três anos e está sendo impulsionada pelo avanço do desmatamento. O grupo de pesquisadores, liderado por Divino Silvério, comparou os focos de incêndio registrados pelo Inpe com indicadores de alertas de desmatamento feitos pelo sistema de monitoramento por satélites SAD, do Imazon. Para eles, há forte correlação entre as duas atividades.

"Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento", escreveram os autores em nota técnica. "Esta concentração de incêndios florestais em áreas recém-desmatadas e com estiagem branda representa um forte indicativo do caráter intencional dos incêndios: limpeza de áreas recém-desmatadas", apontam.

Para a diretora de Ciência do Ipam, Ane Alencar, não existe fogo natural na Amazônia. “O que há são pessoas que praticam queimadas, que podem piorar e virar incêndios na temporada de seca”, disse em informe divulgado à imprensa.

O presidente Bolsonaro, por exemplo, chegou a afirmar que há "indício fortíssimo de que ONGs estão por trás das queimadas". De acordo com o presidente, as ONGs "perderam dinheiro" e "estão desempregadas", por isso, teriam interesse em fazer uma campanha contra o governo.