ESPORTES

  • 09/11/2019 (11:46:59)

  • GZH

EM 1919

Há cem anos, Brasil-Pel se tornava o primeiro campeão gaúcho

Time da zona sul do Estado derrotou o Grêmio por 5 a 1 em Porto Alegre e ficou com o troféu


Fortim da Baixada era o estádio do Grêmio no início do século passado / Jonatan Sarmento / Agência


"Os meios sportivos e, porque não dizer, a Cidade, exultaram, hontem, com a noticia da victoria do Gremio Sportivo Brasil, arrebatando, n'uma pugna que ficará memoravel, o honroso título de Campeão Estadual. No sensacional torneio, que preocupava as attenções dos sportmen de todo o Rio Grande do Sul, e de fóra daqui, os valorosos rapazes conterraneos, defendendo brilhantemente as tradições sportivas de Pelotas e reafirmando o seu incontestado valor, aumentaram o acervo de suas glorias ineffuscaveis colhidas em três sucessivos campeonatos."

O charmoso parágrafo acima, retirado do jornal Diário Popular, de Pelotas, misturando expressões de português antigo e inglês é a forma mais adequada para descrever o que o Rio Grande do Sul presenciou há exatos cem anos. Naquele 9 de novembro de 1919, o Brasil-Pel aplicou 5 a 1 no Grêmio, na decisão da primeira edição do Campeonato Gaúcho. A conquista centenária celebrou o início da organização maior do esporte no Estado e até hoje é lembrada como um marco do futebol. Afinal, foi também a primeira partida da história do Estadual.

A bem da verdade, o Gauchão de 1919, disputado em jogo único, foi diferente da ideia original. O plano da organização era contar com representantes de mais cidades e regiões. Mas o Nacional (de São Leopoldo), o Guarany (de Bagé), 14 de Julho (de Santana do Livramento), o Cruz Alta e o Uruguaiana, campeões de suas localidades, não conseguiram inscrever seus atletas em tempo hábil. Assim, coube apenas a Brasil, o vencedor do citadino de Pelotas, e a Grêmio, o ganhador do torneio porto-alegrense, decidirem o primeiro campeonato estadual.

A partida foi marcada para o Fortim da Baixada, estádio do Grêmio. O campo era localizado onde hoje é o Parque Moinhos de Vento, uma das áreas mais concorridas da Capital. E os relatos da Revista Máscara, de Porto Alegre, são de que uma "numerosa assistencia irrompeu em enthusiasticos applausos e vivas ao team do Brasil ao final do match".

Mas para ganhar esses enthusiasticos applausos e vivas, a delegação do Brasil precisou encarar uma aventura. Chegar a Porto Alegre não tinha a facilidade atual (ainda que não seja lá tão fácil assim o trecho sul da BR-116), a viagem era feita de navio e demorava até dois dias para ser completada. Para o jogo, o grupo, chefiado pelo Coronel Manoel Simões Lopes (filho de João Simões Lopes Filho, o Visconde da Graça), navegou a bordo do vapor Mercedes. Ancorou no porto no dia anterior à partida.

Em 9 de novembro, às 16h, a bola rolou. 

Detalhe: o time da Capital era treinado por Lagarto, que também atuou como atacante naquela partida. Do lado pelotense, Maneca Farias foi só técnico mesmo. Os esquemas táticos, segundo registros da época, eram os mesmos. E bastante ofensivos: 2-3-5. Ou seja: dois zagueiros, três na linha média (entre o meio-campo e as laterais) e cinco atacantes.

Em 19 minutos, o Brasil fez 2 a 0 com o atacante Proença, craque do time, e com o meia-atacante Alberto Corrêa. O Grêmio descontou com Máximo ainda no primeiro tempo. Na etapa final, Alvariza fez um e Proença marcou mais dois, fechando o placar em 5 a 1. Fosse hoje, o artilheiro poderia pedir música no Fantástico.

"Não se podem escurecer e nem abafar, por mais estreitos que sejam os sentimentos de indifferença ou de animosidade, o brilho e a repercussão desse magnifício triumpho, que é nosso também, porque foi alcançado por dignos e briosos filhos desta terra", escreveu o Diário Popular.

A análise da Máscara foi além: "O team do G. S. Brasil é rigorosamente o mesmo que ha três anos vem conquistando o campeonato pelotense...e revelou por isso mesmo, além de um treno rigoroso, uma disciplina e uma segurança de combinação que nunca se poderá esperar dos nossos teams sempre mutaveis e em que os jogadores se substituem constantemente, não só de uma temporada para a outra, mas no curso mesmo da temporada".

Gauchão 1919 – Final (jogo único), domingo, 9/11/1919

Grêmio (1) (esquema 2-3-5)

Demétrio; Pinto e Py; Assumpção, Dorival e Chiquinho; Gertum, Lagarto, Máximo, Meneghini e Levy. Técnico: Lagarto

Brasil (5) (esquema 2-3-5) Franck; Nunes e Ary; Babá, Floriano e Rossel; Alberto Corrêa, Ignácio Gerlach, Alvariza, Farias e Proença. Técnico: Maneca Farias

Gols: Proença (B), aos 12min, Corrêa (B), aos 19min, e Máximo (G), aos 28min do 1º tempo; Proença (B), aos 4min, Alvariza (B), aos 6min, e Proença (B), aos 26min do 2º tempo. 

Árbitro: Oscar Fontoura (RS) Público: 3.500 espectadores Local: Fortim da Baixada, em Porto Alegre

Retorno da "consagração e da glorificação"

Após a vitória, a delegação pelotense permaneceu na Capital. Dois dias depois do título, os campeões enfrentaram uma seleção porto-alegrense em partida amistosa cujos registros apontam para um empate em 3 a 3. Só então os jogadores retornaram para casa.

A chegada em Pelotas foi triunfal. Pouco antes das 10h de 13 de novembro, a embarcação aproximou-se do porto e o comandante disparou com o canhão para avisar da chegada.

Na passagem do navio, a comunidade aglomera-se para receber seus heróis. Os jogadores foram ovacionados e depois conduzidos em uma grande comemoração até a Praça Coronel Pedro Osório, uma das mais importantes da cidade.

O pioneirismo do Brasil no Estado estendeu-se para além divisas. Por ter sido o campeão gaúcho, o clube foi convidado pela CBD para disputar uma espécie de Taça Nacional com outros vencedores. Oficialmente, o objetivo era premiar um campeão no país, mas havia também o desejo de descobrir valores para montar a Seleção que disputaria os Jogos Olímpicos da Antuérpia e o Sul-Americano. O torneio de clubes ocorreu no Estádio das Laranjeiras, no Rio, e teve a presença dos ganhadores no Rio e em São Paulo.

Os gaúchos perderam para Fluminense (RJ) e Paulistano (SP), mas viram seu jogador Alvariza ser o primeiro atleta nascido no RS a ser convocado para defender a Seleção. O Paulistano foi o campeão. E o Brasil, mais uma vez, o pioneiro. Há 100 anos, "de janellas e dos passeios, senhoras, cavalheiros e populares davam palmas, accenavam com lenços e erguiam vivas".