Após anos de espera, pacientes recuperam mobilidade graças a mutirão que já realizou cerca de 40 cirurgias
Com meta de 135 cirurgias em três meses, iniciativa reduz filas históricas e transforma a vida de pacientes que conviviam com dor, limitações e perda de autonomia.
Para quem convive diariamente com a dor, tarefas simples como caminhar, visitar familiares ou cuidar da própria casa podem se transformar em grandes desafios. No Alto Uruguai, dezenas de pessoas que aguardavam há anos por uma cirurgia de prótese de joelho começam agora a reencontrar a esperança de uma vida com mais autonomia, mobilidade e qualidade de vida.
O Mutirão Regional de Cirurgias Ortopédicas, realizado na Fundação Hospitalar Santa Terezinha de Erechim (FHSTE), já alcançou a marca de 38 procedimentos realizados e representa um importante avanço na redução da fila de espera por cirurgias ortopédicas na região.

A iniciativa integra o programa SUS Gaúcho e é fruto da união de esforços entre a Prefeitura de Erechim, a Associação dos Municípios do Alto Uruguai (AMAU), o Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul (COSEMS/RS), a Fundação Hospitalar Santa Terezinha e a 11ª Coordenadoria Regional de Saúde.
Desde o início de maio, pacientes de Erechim e de diversos municípios da região vêm sendo chamados para realizar o procedimento. A meta é ambiciosa: realizar 135 cirurgias em apenas três meses. Para tornar isso possível sem comprometer o atendimento regular do hospital, os procedimentos estão sendo concentrados principalmente em finais de semana e feriados.
O fim de uma espera marcada pela dor
Por trás dos números, existem histórias de superação e expectativa.
Aos 62 anos, Marina de Marchi aguardou por dois anos e meio a oportunidade de realizar a cirurgia. Cuidadora da mãe acamada, ela viu sua independência ser limitada pelas dores constantes.

Agora, após o procedimento, sonha com algo que para muitos parece simples: voltar a caminhar sem sofrimento.
“Quero conseguir sair de casa, ir até a cidade e fazer minhas coisas sem depender tanto dos outros. Espero deixar essa dor para trás”, relata emocionada.
A história de Luiza Ströher, de 70 anos, também é marcada pela perseverança. Foram quatro anos de espera até a chegada do tão esperado dia. Mãe de um filho cadeirante, ela já percebe os primeiros sinais de melhora e projeta voltar a cuidar da horta e das atividades da propriedade rural.

“Os primeiros dias não foram fáceis, mas hoje já consigo enxergar a recuperação. Tenho esperança de voltar à minha rotina”, conta.
Para Amélio Smaniotto, de 82 anos, o caminho até a cirurgia teve um desafio extra. Durante os exames preparatórios, foi diagnosticado com um problema cardíaco que exigiu a implantação de um marca-passo antes da operação.

Depois de enfrentar mais essa etapa, ele finalmente realizou o procedimento e agora aguarda ansioso pelo retorno de momentos que fazem falta no dia a dia.
“Sinto saudade de sair de casa, jogar baralho e encontrar os amigos. Quero voltar a viver esses momentos”, diz.
Já Selma Relsner, de 73 anos, aguardava havia cerca de um ano e meio pela cirurgia. Segundo ela, a dor que sentia antes do procedimento era tão intensa que a recuperação tem sido mais tranquila do que imaginava.

“Hoje consigo perceber que valeu a pena esperar. A expectativa é voltar a fazer minhas atividades com muito mais conforto”, afirma.
Enquanto alguns celebram a recuperação, outros seguem contando os dias para serem chamados. É o caso de Cirlei Szady, de 71 anos. Após mais de 40 anos de trabalho na agricultura, ela convive com dores severas que comprometem sua rotina e aguarda a cirurgia há cerca de dois anos.

Muito além de uma cirurgia
Segundo o médico ortopedista Felipe Paiva, responsável pelos procedimentos, os benefícios da cirurgia vão muito além da recuperação física.

“Esses pacientes deixam de trabalhar, de visitar familiares, de participar de atividades sociais e até de realizar tarefas básicas. Quando devolvemos mobilidade, devolvemos também independência, autoestima e qualidade de vida. O impacto social desse projeto é enorme”, destaca.
Um investimento que muda vidas
Para o prefeito de Erechim, Paulo Polis, a iniciativa demonstra o compromisso dos municípios e do Estado em enfrentar um dos maiores desafios da saúde pública: as filas de espera.
“Muitos pacientes conviviam há anos com limitações severas e dores constantes. Estamos falando de pessoas que voltam a caminhar, a trabalhar, a conviver com a família e a recuperar sua independência. Esse é um investimento que transforma vidas”, afirma.
O secretário municipal de Saúde, Vianei Mueller, reforça que reduzir o tempo de espera para procedimentos especializados é uma das prioridades da gestão.
“Sabemos o quanto essas limitações afetam não apenas os pacientes, mas também suas famílias. Estamos garantindo mais acesso, mais agilidade e mais dignidade para quem aguardava por essa oportunidade”, ressalta.
Na avaliação do diretor executivo do Hospital Santa Terezinha, Rafael Ayub, o mutirão simboliza um avanço importante para a saúde regional.
“Mais do que realizar cirurgias, estamos devolvendo autonomia, mobilidade e esperança para pessoas que passaram anos convivendo com dor e limitações. Esse é o verdadeiro significado desse projeto”, destaca.
Esperança que volta a caminhar
Mais do que números ou estatísticas, o mutirão representa histórias que recomeçam. Cada cirurgia realizada significa menos dor, mais independência e a oportunidade de retomar atividades que pareciam impossíveis.
Ao ampliar o acesso a procedimentos de alta complexidade, a iniciativa fortalece a saúde pública regional e reafirma um princípio essencial: cuidar das pessoas é devolver a elas a possibilidade de viver plenamente.