MÉDICOS DO FUTURO

Jovens médicos debatem desafios da Medicina do futuro em encontro na AMRIGS

Evento em Porto Alegre reuniu especialistas, estudantes e lideranças nacionais para discutir inovação, mercado de trabalho, inteligência artificial e segurança profissional

Por Redação AU/Assessoria Publicado em 17/05/2026 14:39 - Atualizado em 17/05/2026 21:47

Acadêmicos, residentes e jovens profissionais participaram neste sábado (16), em Porto Alegre, do segundo e último dia do Encontro da Comissão Nacional do Médico Jovem da AMB – Edição Rio Grande do Sul 2026, realizado na sede da AMRIGS. O evento reuniu representantes da Associação Médica Brasileira (AMB), Conselho Federal de Medicina (CFM), especialistas e instituições médicas para discutir os caminhos da Medicina diante de um cenário cada vez mais tecnológico, competitivo e juridicamente desafiador.

A programação foi marcada por oficinas teórico-práticas no Centro de Simulação e Treinamento da AMRIGS, com atividades voltadas ao aperfeiçoamento técnico dos futuros médicos. Entre os treinamentos estiveram manejo de vias aéreas, suturas, drenagem de tórax, acesso venoso central e procedimentos gineco-obstétricos. As atividades foram conduzidas por profissionais ligados ao Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC/RS), Sociedade de Anestesiologia do Rio Grande do Sul (SARGS) e SOGIRGS.

Acadêmicas do Centro Universitário Cesuca destacaram a importância das simulações para a prática profissional. Fabrizia Luz afirmou que o treinamento permitiu aplicar conhecimentos estudados em sala de aula, enquanto Ana Souza ressaltou que o uso de manequins ajuda a reduzir riscos aos pacientes e aumenta a segurança durante procedimentos mais complexos, como a intubação sem videolaringoscópio.

Além das práticas clínicas, o encontro também abordou temas ligados à Medicina 4.0, análise crítica de artigos científicos, uso da inteligência artificial na rotina médica, prontuário seguro e emissão de declaração de óbito. Segundo os organizadores, o objetivo foi preparar os novos profissionais para uma atuação mais qualificada, ética e alinhada às transformações da área da saúde.

“Formei, e agora?”

A primeira palestra do dia tratou de finanças, segurança jurídica e associativismo na carreira do jovem médico. A Dra. Penélope Palominos, da Outliers Brasil (plataforma educacional focada em literacia financeira e investimentos) lembrou a importância de iniciar a organização financeira ainda nos primeiros anos de atuação, sem deixar o planejamento para a aposentadoria. Segundo ela, muitos profissionais chegam a uma fase avançada da vida com patrimônio acumulado, mas sem renda passiva suficiente para manter o padrão de vida.

“O patrimônio que vocês construíram durante a vida não deveria ser consumido para garantir a renda que faltou no planejamento. O momento de começar é agora, ainda jovens, aos poucos, comprando ativos que possam gerar renda passiva no futuro”, alertou a médica.

O assessor jurídico da AMRIGS, Dr. Luís Gustavo Andrade Madeira, chamou atenção para a organização jurídica, documental e contratual da atuação médica, medida essencial para reduzir riscos éticos, civis, trabalhistas, tributários e financeiros.

“Um médico bem organizado juridicamente reduz riscos e passa a atuar com mais confiança. Desde a formação, e também na fase acadêmica, é importante buscar orientação, entender os documentos que envolvem a prática profissional e não deixar essas questões para depois”.

A médica Amanda dos Santos, representante da CNMJ, falou sobre associativismo e os impactos desse movimento na vida do jovem médico, destacando o suporte aos novos talentos e aos que já estão inseridos no mercado.

O representante da Comissão Nacional do Médico Jovem da AMRIGS (CNMJ/AMRIGS), Dr. Aldir Dias, tratou de riscos jurídicos e médico-legais. Conforme dados do CFM, em 2022 foram registrados mais de 133 mil processos éticos no país. Entre as áreas apontadas como de maior risco estão Cirurgia Plástica, Ginecologia e Obstetrícia e Ortopedia, especialidades que, pelas características dos atendimentos e intervenções realizadas, costumam concentrar maior exposição a questionamentos éticos, civis e profissionais.

A programação da manhã também abordou o atendimento a pacientes Testemunhas de Jeová, em palestra com o presidente da Comissão de Ligação com Hospitais (COLIH Porto Alegre), Denissen Fossati. Ele explicou que a relação entre o médico e as famílias passa pela compreensão da posição desses pacientes em relação aos tratamentos, especialmente no uso de sangue. Durante a apresentação, mostrou estratégias como minimização da perda sanguínea, aumento da hematopoiese (processo pelo qual o organismo produz, principalmente na medula óssea, as células do sangue, como glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas), tolerância à anemia e manejo do sangue autólogo.

“Um tratamento de qualidade precisa ser individualizado, conforme a doença que está sendo tratada e as necessidades de cada paciente. Mas essa individualização deve vir acompanhada de uma abordagem multiprofissional e de múltiplas especialidades. É importante implementar estratégias que evitem transfusões de sangue sempre que possível, e é nesse ponto que o médico pode contar com o apoio de especialistas nessa área”, declarou.

Novos caminhos para o aprimoramento médico

No período da tarde, a discussão seguiu para a preparação na saúde no país. O coordenador da Prova AMB/AMRIGS, Dr. Antonio Carlos Weston, apresentou a palestra “Cenário atual da educação médica no Brasil e a experiência da Prova AMB/AMRIGS 2025”.

“A educação médica vive um período de transformação acelerada, tanto no Rio Grande do Sul quanto no Brasil. A ampliação do número de cursos de Medicina mudou de forma significativa a realidade da formação profissional. Isso dá a dimensão da modificação que aconteceu e a prova que coordenamos nos permite enxergar retratos muito interessantes deste cenário, porque reúne dados que ajudam a compreender melhor o panorama e os desafios”, pontuou.

Dados da edição de 2025 mostram o crescimento da participação e a abrangência da avaliação. Conforme os números exibidos, foram 9.721 inscritos, com candidatos de seis estados e 18 cidades, e 44,26% de adesão. A prova foi realizada em 23 de novembro e registrou progressão de 22,74% no número de participantes em relação ao ano anterior.

Na sequência, o representante do Conselho Federal de Medicina na Paraíba (CFM/PB), Dr. Bruno Leandro Souza, apresentou a palestra “A realidade do médico jovem brasileiro”. Ele defendeu a importância de uma prova de proficiência para médicos recém-formados, antes da inscrição no conselho profissional, em modelo semelhante ao adotado em outras áreas, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Conselho Federal de Contabilidade (CFC).

“Em 2026, muitos países que têm objetivos de desenvolvimento econômico semelhantes aos nossos já adotam esse modelo. Precisamos olhar para as nações desenvolvidas e avançar nessa direção”, opinou.

O encerramento ocorreu com a arena “Desafios e soluções para a situação do médico jovem no Brasil”. O debate consolidou os principais pontos discutidos ao longo dos dois dias, com foco na qualidade da formação, na defesa do exercício profissional, na presença dos jovens nas entidades associativas e na construção de propostas para uma Medicina mais segura, preparada e conectada às demandas da sociedade.

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