VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
MPRS denuncia homem por feminicídio cometido diante dos filhos da vítima em Erechim
Vítima venezuelana, de 27 anos, havia decidido encerrar o relacionamento e conseguido medida protetiva. Crime deixou duas crianças, de três e quatro anos, órfãs de mãe. MPRS pede indenização à família e perda do poder familiar do acusado.
“Ele tirou a vida de uma mulher para satisfazer um sentimento egoísta.” A declaração do promotor de Justiça Fabrício Gustavo Allegretti resume a gravidade de um crime que deixou duas crianças sem a mãe e uma família marcada pela violência. Nesta segunda-feira (26), o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) denunciou um homem de 29 anos pelo feminicídio de sua companheira, uma venezuelana de 27 anos, assassinada a facadas em Erechim.
O crime aconteceu na noite de 7 de outubro, dentro da residência onde o casal havia morado. Segundo a denúncia, o homem desrespeitou uma medida protetiva de urgência, entrou no imóvel e atacou a vítima com diversos golpes de faca. As duas crianças do casal, de apenas três e quatro anos, estavam presentes no momento da agressão.
A mulher chegou a sobreviver por aproximadamente cinco horas após o ataque, mas não resistiu aos ferimentos.

Ela decidiu terminar o relacionamento. Ele não aceitou.
De acordo com o Ministério Público, o crime foi motivado pela inconformidade do denunciado com o fim do relacionamento. A investigação aponta que o homem mantinha um comportamento de posse e dominação sobre a companheira.
“Ele não aceitou a decisão da vítima de pôr fim ao relacionamento. Ele agiu motivado por um sentimento de posse e dominação que mantinha sobre a mulher”, afirmou o promotor Fabrício Allegretti.
A denúncia também revela que a violência não começou naquela noite.
Em agosto de 2026, o homem teria agredido a companheira na cabeça com um telefone celular. Nas semanas anteriores ao assassinato, também teria feito ameaças de morte. Diante da situação, a vítima procurou a polícia, registrou boletim de ocorrência e solicitou proteção judicial.
Mesmo com a medida protetiva concedida poucos dias antes, a violência terminou em feminicídio.
Ministério Público aponta agravantes e pede perda do poder familiar
Além do feminicídio, o homem foi denunciado pelos crimes de lesão corporal e ameaça.
O MPRS sustenta que o assassinato ocorreu em contexto de violência doméstica e aponta circunstâncias agravantes, entre elas o emprego de meio cruel, o recurso que dificultou a defesa da vítima e o motivo torpe. A presença dos filhos durante o crime e o descumprimento da medida protetiva também integram a denúncia.
O Ministério Público solicitou à Justiça que determine a perda do poder familiar do denunciado em relação às duas crianças e estabeleça uma indenização mínima aos sucessores da vítima pelos danos provocados pelo crime.
Família venezuelana busca justiça e definição sobre o futuro das crianças
Enquanto o processo judicial avança, os familiares da vítima enfrentam a perda e a preocupação com o destino das duas crianças.
Na sexta-feira (23), o pai, a mãe e a irmã da mulher foram recebidos na sede das Promotorias de Justiça de Erechim. Todos são venezuelanos. O pai reside em Santa Catarina, enquanto a mãe e a irmã vivem na Venezuela.
Durante o encontro, o promotor Fabrício Allegretti explicou as providências adotadas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, apresentou informações sobre o funcionamento do Tribunal do Júri brasileiro e comunicou que solicitou a nomeação de um tradutor para acompanhar os familiares nas audiências.
A família também recebeu orientações sobre os procedimentos necessários para encaminhar a guarda das crianças.
Como a mãe e a irmã da vítima pretendem retornar à Venezuela após a definição da guarda, o Ministério Público solicitou a produção antecipada dos depoimentos delas e do pai. A medida busca preservar provas importantes para o processo antes que os familiares deixem o Brasil.
Um crime que deixa consequências muito além da vítima
A morte da jovem venezuelana expõe uma realidade grave da violência contra a mulher: a decisão de encerrar um relacionamento pode ser seguida de ameaças, perseguição e agressões quando o agressor não aceita a separação.
Neste caso, a vítima havia procurado ajuda e obtido uma medida protetiva. Ainda assim, foi morta dentro de casa, na presença dos próprios filhos.
Agora, além da responsabilização criminal do denunciado, a Justiça terá de decidir questões que afetam diretamente o futuro das duas crianças.
A denúncia apresentada pelo Ministério Público é mais uma etapa do processo judicial. Caberá à Justiça analisar as acusações e decidir sobre a responsabilização do homem.
Mulheres em situação de violência podem buscar orientação e atendimento pela Central 180. Em situações de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo telefone 190.
*Com informações do MP/RS