DE COLLOR ÀS FRAUDES DO INSS
PC Farias: o escândalo que levou o governo Collor ao impeachment
Em 36 anos, o Brasil passou por impeachment, CPIs, denúncias de compra de votos, desvios em obras, fraudes em licitações, Mensalão, Lava Jato, orçamento secreto e descontos indevidos de aposentados. O AU revisita os principais casos, os valores envolvidos e, principalmente, como cada episódio terminou — ou ainda está sendo investigado.

O Brasil que foi às urnas em 1989 para escolher diretamente um presidente da República depois de quase três décadas não demorou a descobrir que a retomada plena da democracia também colocaria as instituições diante de outro desafio: investigar quem exercia o poder.
Desde a posse de Fernando Collor, em março de 1990, escândalos envolvendo dinheiro público, financiamento político, bancos, grandes obras, estatais, emendas parlamentares e contratos governamentais atravessaram diferentes administrações.
Nenhum partido deteve exclusividade sobre as denúncias.
Nesse período, o país teve presidentes de diferentes campos políticos, assistiu a dois processos de impeachment, criou CPIs que paralisaram Brasília, viu empresários e políticos presos e acompanhou julgamentos históricos no Supremo Tribunal Federal (STF).
Mas a passagem do tempo também mostrou algo que muitas vezes desaparece no debate político: denúncia, investigação, indiciamento e condenação são situações completamente diferentes.
Houve escândalos que terminaram em condenações. Outros foram arquivados. Pessoas inicialmente acusadas foram absolvidas. Condenações foram posteriormente anuladas. E há investigações que, em 2026, continuam abertas.
COLLOR | 1990–1992

PC Farias e o primeiro grande escândalo da Nova República
Fernando Collor de Mello assumiu a Presidência em 15 de março de 1990. Dois anos depois, seu governo estava mergulhado em uma crise que terminaria com sua saída do Palácio do Planalto.

No centro das denúncias estava Paulo César Farias, o PC Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor em 1989.
As denúncias ganharam força depois que Pedro Collor, irmão do presidente, acusou PC Farias de comandar um esquema de arrecadação irregular e tráfico de influência.
O Congresso instalou uma CPI.
A investigação encontrou movimentações por meio de contas de pessoas usadas como intermediárias e pagamentos relacionados a despesas pessoais do presidente, incluindo gastos na Casa da Dinda, residência da família Collor em Brasília.
A CPI transformou uma crise política em processo de impeachment.
Em setembro de 1992, a Câmara autorizou a abertura do processo. Collor foi afastado.
No dia 29 de dezembro, pouco antes do julgamento no Senado, apresentou sua renúncia.
O processo, porém, continuou, e o Senado determinou sua inabilitação para o exercício de função pública por oito anos.
Como terminou
Há uma distinção histórica importante.
Em 1994, o STF absolveu Collor da acusação de corrupção passiva relacionada ao chamado Esquema PC, por falta de provas suficientes de sua participação nos fatos apresentados naquela ação penal.
A absolvição criminal não anulou o julgamento político realizado pelo Senado nem a pena de inabilitação.
É com essa ressalva que o AU apresenta esta retrospectiva.
O desfecho do caso PC Farias
Quem matou PC Farias ? A pergunta permanece sem resposta
Não se sabe quem matou Paulo César Farias (o PC Farias), ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello.
O caso permanece cercado por versões conflitantes. PC Farias e sua companheira, Suzana Marcolino, foram encontrados mortos a tiros na madrugada de 23 de junho de 1996, em uma casa de praia em Guaxuma, Maceió.
A primeira versão: um laudo inicial do então Instituto Médico Legal de Alagoas apontou para um crime passional — Suzana teria matado PC Farias e depois cometido suicídio.
A outra hipótese: posteriormente, peritos independentes, entre eles George Sanguinetti e Ricardo Molina, questionaram aspectos da investigação e defenderam a possibilidade de duplo homicídio.
Três décadas depois, a morte de PC Farias permanece como um dos episódios mais controversos associados ao período que levou ao impeachment de Fernando Collor.
Na próxima reportagem
O impeachment de Collor não encerrou a relação entre política, poder e dinheiro público no Brasil. A série avança para o período seguinte e mostra como novos escândalos, personagens e mecanismos passaram a ocupar o centro da vida política nacional.