PESO DO ENDIVIDAMENTO
Peso das dívidas freia consumo e Fazenda reduz previsão de crescimento da economia para 2%
Comprometimento da renda das famílias com juros e parcelas alcançou o maior nível da série histórica, reduzindo espaço para consumo; governo também baixou estimativa de inflação de 2026
O peso das dívidas das famílias começa a aparecer com mais força nas projeções para a economia brasileira. O Ministério da Fazenda reduziu de 2,3% para 2% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 e apontou o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas como um dos fatores que ajudam a explicar a perda de ritmo da atividade.

A revisão consta da nova edição do boletim macroeconômico da pasta, utilizado também como referência para as projeções orçamentárias do governo federal.
O ponto que chama atenção não está apenas no tamanho das dívidas acumuladas pelas famílias, mas em quanto da renda mensal precisa ser destinada ao pagamento de prestações, juros e demais encargos.
Segundo o Ministério da Fazenda, embora o endividamento permaneça relativamente estável quando comparado à renda, o comprometimento com o chamado serviço da dívida atingiu, no segundo trimestre, o maior nível da série histórica.
Na prática, sobra menos dinheiro para outras despesas.
“Ainda que o endividamento das famílias siga estável em proporção da renda, o comprometimento com o serviço da dívida atingiu o maior nível da série histórica no segundo trimestre, o que limita a conversão do avanço da massa de rendimentos em consumo”, aponta o documento.
Renda cresce, mas parte maior fica com as dívidas
Esse movimento ajuda a explicar uma situação que pode parecer contraditória. O mercado de trabalho continua sustentando a renda, mas esse dinheiro adicional não necessariamente chega ao comércio e aos serviços na mesma proporção.
Quando aumenta a parcela do orçamento destinada ao crédito contratado anteriormente, a família tende a reduzir ou adiar outros gastos. O efeito aparece principalmente no consumo e, em sequência, nos setores que dependem diretamente dele.
É justamente o setor de serviços, de grande peso na economia brasileira, que aparece entre as razões para a Fazenda diminuir a previsão do PIB.
A indústria também sente os efeitos de um ambiente de crédito caro. Segundo o ministério, o setor enfrenta demanda mais fraca por bens de consumo e custos elevados de financiamento. A indústria extrativa, por outro lado, continua ajudando a sustentar o desempenho industrial.
Juros altos continuam pesando
Outro componente importante deste cenário é a manutenção da taxa Selic em nível considerado contracionista.
Juros elevados têm efeito em diferentes pontos da economia. Tornam financiamentos e empréstimos mais caros para consumidores, aumentam o custo financeiro das empresas e dificultam a renegociação de dívidas já existentes.
Por isso, mesmo com indicadores favoráveis no mercado de trabalho, a Fazenda trabalha com uma desaceleração da atividade econômica durante o segundo semestre.
Há fatores que podem compensar parcialmente esse movimento. Um deles é a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física, que aumenta a renda disponível de parte dos trabalhadores e, na avaliação do governo, deve amenizar a perda de ritmo do consumo.
Previsão de inflação também cai
A Fazenda também revisou sua estimativa para a inflação de 2026. A projeção do IPCA passou de 5,1% para 4,9%.
Mesmo com a redução, a estimativa permanece acima do limite superior da meta.
Desde o início de 2025, o Brasil utiliza o sistema de meta contínua de inflação. O centro da meta é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Assim, o teto é de 4,5%.
Entre as razões para a revisão estão resultados recentes do IPCA abaixo do esperado, especialmente nos preços da alimentação no domicílio e, em menor intensidade, nos serviços.
O ministério também considera a melhora das expectativas inflacionárias, os efeitos dos juros elevados e a própria desaceleração prevista para a economia no segundo semestre.
El Niño entra nas contas
Nem todos os fatores apontam para inflação menor.
A projeção da Fazenda considera possíveis pressões provocadas pelo El Niño, fenômeno climático capaz de interferir na produção agrícola e, consequentemente, nos preços dos alimentos.
Há ainda um efeito que não estava completamente incorporado às estimativas: as mudanças recentes na tributação dos combustíveis.
Segundo os números apresentados pelo governo, as alíquotas de PIS/Pasep e Cofins sobre a gasolina foram reduzidas em R$ 0,63 por litro, substituindo uma subvenção de R$ 0,44. Para o etanol hidratado, as duas contribuições foram zeradas, reduzindo a carga tributária em R$ 0,19 por litro.
A Fazenda calcula que a desoneração da gasolina e do etanol, desconsiderando a subvenção ao diesel, tem potencial para retirar aproximadamente 0,15 ponto percentual do IPCA.
Orçamento apertado chega ao comércio
A revisão do crescimento para 2% coloca novamente o orçamento das famílias no centro da discussão econômica.
Emprego e renda continuam sendo elementos de sustentação da atividade, mas agora dividem espaço com um problema acumulado nos últimos anos: uma parcela maior do dinheiro recebido mensalmente já está comprometida antes mesmo de chegar ao consumo.
Esse efeito tende a ser percebido diretamente no comércio e nos serviços. Com menos renda livre depois do pagamento das contas e das dívidas, famílias adiam compras, reduzem gastos não essenciais e ficam mais cautelosas para assumir novos financiamentos.
É justamente esse comportamento que ajuda a explicar por que, mesmo com um mercado de trabalho ainda resistente, a Fazenda espera uma economia crescendo em ritmo menor em 2026.