POBREZA E VULNERABILIDADE
Sem programas sociais, pobreza extrema atingiria 4,5% dos gaúchos
Estudo do governo estadual mostra que 1,7% da população vivia com menos de US$ 3 por dia em 2025; sem considerar transferências governamentais, índice seria quase três vezes maior. Dados também expõem desigualdades e o impacto das enchentes sobre a população gaúcha
Os indicadores de pobreza no Rio Grande do Sul mostram uma situação que exige atenção. Embora o Estado apresente números melhores que a média brasileira, milhares de famílias permanecem em condições de baixa renda e uma parcela importante depende das transferências sociais para não cair abaixo da linha internacional de extrema pobreza.

Em 2025, 1,7% da população gaúcha estava abaixo dessa linha, definida por uma renda inferior a US$ 3 por pessoa ao dia, considerando valores ajustados pela Paridade do Poder de Compra (PPC) de 2021.
O dado que mais chama atenção aparece quando o estudo faz uma simulação retirando da renda das famílias os valores recebidos por meio de programas sociais governamentais.
Nesse cenário, a pobreza extrema no Rio Grande do Sul saltaria de 1,7% para 4,5% da população.
Ou seja, sem essas transferências, a proporção de gaúchos vivendo abaixo da linha internacional seria mais de duas vezes e meia maior.
No Brasil, a diferença é ainda mais acentuada. A taxa observada em 2025 foi de 4,3%, mas chegaria a 10,7% sem os recursos provenientes dos programas sociais.
Estudo acompanha uma década
Os números fazem parte do Caderno ODS Erradicação da pobreza: o ODS 1 no Rio Grande do Sul – 2015-2025, elaborado pelo Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG).
O trabalho é de autoria do pesquisador Felipe Nathan Ferreira dos Santos, com revisão técnica de Raul Luís Assumpção Bastos.
A publicação acompanha indicadores ligados ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 1, da Organização das Nações Unidas (ONU), voltado à erradicação da pobreza. Além da renda, são avaliados proteção social, condições dos domicílios, acesso a serviços básicos e tecnologias e exposição da população a desastres.
Baixa renda ainda alcança parcela importante dos gaúchos

Quando utilizada a linha nacional de rendimento domiciliar por pessoa de até R$ 218 mensais, houve redução na última década. A proporção passou de 1,8% da população gaúcha em 2015 para 1,4% em 2024.
Em uma faixa mais ampla, entre um quarto e meio salário mínimo por pessoa, a queda também ocorreu, mas o contingente continua significativo: 12,9% da população estava nessa condição em 2015 e 9% em 2024.
Os números indicam melhora no período analisado, mas mostram também uma realidade delicada: uma parcela da população permanece muito próxima das faixas mais baixas de renda e as transferências governamentais têm peso importante na redução da pobreza extrema.
Mulheres, pretos e pardos apresentam índices maiores
As diferenças aparecem com mais clareza quando os dados são separados por sexo e cor ou raça.
Em 2025, a proporção de pessoas abaixo da linha internacional de extrema pobreza era de 1,8% entre as mulheres e 1,6% entre os homens no Rio Grande do Sul.
Entre pretos e pardos, o índice chegava a 2,2%, enquanto entre os brancos era de 1,6%.
O Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal também ajuda a dimensionar esse quadro. Em 2025, as mulheres representavam 57,6% das pessoas cadastradas no Estado.
Entre os inscritos, 76,1% eram brancos e 23% pretos ou pardos. Em 2015, pretos e pardos correspondiam a 19%.
Outro movimento expressivo ocorreu entre as pessoas com deficiência. A participação desse grupo no CadÚnico gaúcho passou de 3,9% em 2015 para 12,8% em 2025. No Brasil, o percentual avançou de 2,4% para 8,1%.
Pobreza passa a pesar mais nas áreas urbanas
Também houve mudança na distribuição territorial da extrema pobreza.
Entre 2015 e 2020, sua incidência era maior no meio rural. A diferença diminuiu nos anos seguintes e, a partir de 2021, os percentuais registrados nas cidades passaram a superar os do campo.
Em 2025, 1,8% da população urbana gaúcha estava abaixo da linha internacional, contra 1,2% entre os moradores das áreas rurais.
É uma mudança relevante para as políticas públicas, especialmente porque concentra parte da vulnerabilidade em cidades onde despesas com moradia, alimentação, transporte e serviços pesam diretamente no orçamento das famílias de menor renda.
Previdência alcança 77,1% dos trabalhadores ocupados
Em outro indicador social, o Rio Grande do Sul aparece acima da média nacional. Em 2025, 77,1% da população ocupada com 14 anos ou mais contribuía para algum instituto de previdência. No Brasil, eram 65,6%.
Mesmo entre famílias atendidas pelos programas de transferência de renda, porém, persistem deficiências de infraestrutura.
Entre os beneficiários do Bolsa Família no Estado, aproximadamente dois terços dos domicílios possuíam, em 2025, esgotamento por rede geral, rede pluvial ou fossa ligada à rede.
Por outro lado, o acesso à internet avançou de maneira significativa. Em 2016, 78,8% dos moradores do Rio Grande do Sul viviam em residências onde havia utilização da internet. Em 2025, eram 97,1%.
Enchentes expuseram outra dimensão da vulnerabilidade
O levantamento ganha um componente ainda mais preocupante quando a pobreza é analisada em conjunto com a exposição aos desastres.
Em 2024, ano das enchentes históricas de maio, o Rio Grande do Sul registrou 7.220,2 mortes, desaparecidos e pessoas diretamente afetadas por desastres para cada 100 mil habitantes, conforme o indicador utilizado no estudo.
Dados do IBGE reunidos na publicação apontam que 478 dos 497 municípios gaúchos foram afetados pelas enchentes, atingindo diretamente aproximadamente 2,4 milhões de pessoas.
Foram contabilizadas 183 mortes, 27 desaparecidos e 806 feridos. Cerca de 146 mil pessoas ficaram desalojadas e mais de 50 mil precisaram de abrigos.
O desastre mostrou como eventos climáticos de grande dimensão podem ampliar rapidamente situações de vulnerabilidade, atingindo renda, moradia, emprego e patrimônio das famílias.
Municípios avançam na prevenção, mas cobertura ainda é limitada
O estudo acompanha ainda a implantação de estratégias municipais de redução de riscos de desastres.
No Rio Grande do Sul, a proporção de governos municipais que declaravam possuir essas estratégias passou de 23,1% em 2013 para 56,7% em 2020.
O avanço foi superior ao observado no conjunto do país, que passou de 23,1% para 47% no mesmo intervalo.
Ainda assim, o dado significa que, naquele último levantamento considerado, pouco mais da metade dos municípios gaúchos contava com estratégias locais dessa natureza.
Números melhores que os do Brasil não eliminam o alerta

O conjunto dos indicadores coloca o Rio Grande do Sul em situação melhor que a média brasileira em diferentes aspectos, mas também evidencia a fragilidade econômica de uma parcela da população.
O dado mais significativo está justamente no exercício realizado pelos pesquisadores: sem considerar os recursos provenientes de programas sociais, a parcela dos gaúchos abaixo da linha internacional de extrema pobreza passaria de 1,7% para 4,5%.
A diferença mostra que a redução da pobreza não depende apenas da renda gerada pelo trabalho e pela atividade econômica. Para uma parcela das famílias, benefícios e transferências públicas ainda representam a diferença entre permanecer acima ou cair abaixo da linha de extrema pobreza.
Somam-se a isso desigualdades entre grupos da população, deficiências de infraestrutura e uma nova variável que ganhou peso no Rio Grande do Sul: os efeitos econômicos e sociais dos eventos climáticos extremos, capazes de empurrar famílias vulneráveis para situações ainda mais difíceis em pouco tempo.