CLIMA | EL NIÑO 2026
Pacífico vira de La Niña para El Niño recorde em poucos meses e chama atenção da ciência
Em janeiro, águas do Pacífico Equatorial ainda apresentavam características de La Niña; agora, anomalias superam 3°C na principal região de monitoramento do fenômeno e pesquisadores investigam o que pode estar por trás de uma transição tão rápida
O Oceano Pacífico começou 2026 sob influência da La Niña e chega a outubro em uma situação praticamente oposta. Em poucos meses, o resfriamento deu lugar a um aquecimento excepcional das águas equatoriais, levando à formação de um El Niño de intensidade muito forte.

O que chama atenção não é apenas a força alcançada pelo fenômeno, mas a velocidade da mudança.
No começo do ano, a chamada Região Niño 3.4, principal referência utilizada no acompanhamento do El Niño e da La Niña, apresentava anomalia de temperatura da superfície do mar de -0,7°C, compatível com La Niña fraca. Agora, a anomalia indicada chega a +3,2°C.
A mudança também aparece de maneira acentuada junto às costas do Peru e do Equador. Na Região Niño 1+2, associada ao chamado El Niño Costeiro, a anomalia passou de -0,2°C no início do ano para +5,3°C.
Em termos simples, uma extensa área do Pacífico que começou 2026 mais fria do que o normal passou a registrar temperaturas muito acima da média em questão de meses.
Neutralidade durou pouco
As condições de La Niña desapareceram em fevereiro. O Pacífico entrou então em neutralidade, mas essa fase teve curta duração.
A partir de abril, o aquecimento ganhou velocidade. Em maio, as condições já eram compatíveis com El Niño e, em 11 de junho, o fenômeno foi declarado pela NOAA, agência norte-americana responsável pelo monitoramento climático e oceânico.
O avanço continuou.
Na semana de 8 de julho, a anomalia da Região Niño 3.4 atingiu +2°C, patamar associado informalmente aos episódios conhecidos como “Super El Niño”.
A comparação com outros grandes eventos ajuda a dimensionar a rapidez. No El Niño de 1982-1983, a marca de +2°C só apareceu no fim de novembro. Em 1997-1998, ocorreu no começo de setembro. No episódio de 2015-2016, em meados de setembro.
Em 2026, o mesmo patamar foi alcançado já em julho.
Mudanças rápidas fazem parte do ciclo, mas 2026 chama atenção

A passagem entre La Niña e El Niño não precisa levar anos. O sistema formado pelo oceano e pela atmosfera no Pacífico pode mudar de fase em poucos meses.
O fenômeno faz parte do chamado ENSO — El Niño-Oscilação Sul, um ciclo natural capaz de alternar períodos de aquecimento, resfriamento e neutralidade das águas equatoriais.
Pesquisas recentes procuram compreender por que algumas dessas mudanças acontecem de forma muito mais rápida do que outras.
Estudos indicam que o comportamento do ENSO não depende exclusivamente do Pacífico. Interações atmosféricas com os oceanos Índico e Atlântico podem modificar os ventos tropicais e acelerar tanto o enfraquecimento de um evento quanto a passagem para uma condição diferente.
Outro fator estudado é o deslocamento das anomalias de vento para o Hemisfério Sul. Esse movimento pode alterar a relação entre oceano e atmosfera e contribuir para o encerramento mais rápido de determinadas fases.
Há precedentes de mudanças intensas. O forte El Niño de 1997-1998, por exemplo, foi sucedido por uma La Niña igualmente expressiva.
E o aquecimento global?
É justamente neste ponto que uma das principais questões científicas aparece: um planeta mais quente pode favorecer transições extremas entre La Niña e El Niño?

A resposta ainda está sendo investigada.
Um estudo sobre a passagem de episódios prolongados de La Niña para eventos fortes de El Niño concluiu que esse tipo de transição continua sendo relativamente raro, mas pode se tornar mais provável em um cenário de aquecimento global.
Durante a La Niña, o Pacífico pode gradualmente recuperar e armazenar calor. Quando ocorre a mudança de fase, uma reorganização desse enorme conteúdo de energia pode favorecer um aquecimento rápido das águas superficiais.
Isso não significa que o El Niño de 2026 possa ser atribuído simplesmente às mudanças climáticas. El Niño e La Niña são fenômenos naturais e existem muito antes do atual aquecimento provocado pelas atividades humanas. O que os pesquisadores procuram determinar é se o aumento da temperatura global está modificando a frequência, a intensidade ou a velocidade das transições mais extremas.
Por que isso interessa ao Rio Grande do Sul
Para o Sul do Brasil, acompanhar essa evolução é especialmente importante.
O El Niño costuma favorecer maior disponibilidade de umidade e episódios de chuva acima da média na região. Isso não significa chuva constante nem permite atribuir individualmente cada temporal ao fenômeno, mas aumenta a preocupação quando o Pacífico permanece muito aquecido justamente durante a primavera e o começo do verão.
No Rio Grande do Sul, onde diferentes regiões já enfrentaram sucessivos episódios de chuva volumosa e rios elevados ao longo dos últimos meses, a evolução do Pacífico passa a ser um dos principais elementos acompanhados para as próximas semanas.
E 2026 deixa uma questão relevante para a ciência: a velocidade extraordinária com que o Pacífico saiu de uma La Niña e chegou a um El Niño tão intenso é apenas uma variação excepcional do ciclo natural ou um sinal de como o ENSO pode se comportar em um planeta cada vez mais quente?
É essa resposta que os pesquisadores ainda procuram.